quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Novidades de Melniboné

Ao final deste mês de outubro, chegará às bancas o primeiro volume de Elric, O Trono de Rubi, álbum em quadrinhos baseado na obra de Michael Moorcock. Com roteiro de Julien Blondel e arte de um time de responsa encabeçado por Didier Poli, essa é considerada a melhor versão em quadrinhos pelo próprio criador do personagem. A edição brasileira é da Mythos e a tradução ficou ao encargo deste que vos tecla.
Eis aqui, em primeira mão, o booktrailer da HQ, que já mostra toda a riqueza do material.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre arte, moral, ética e instituições privadas

Arte de Don Heck
Falando em censura/auto censura/bloqueio/etc, por conta da exposição de arte erótica suspensa pelo banco Santander, vamos recordar o que aconteceu com as HQs americanas nos anos 50? Pois então, um psiquiatra renomado decidiu achar um bode expiatório para a delinquência juvenil e resolveu culpar as HQ de horror. Montes de HQs foram queimadas, editoras faliram e os outros editores resolveram se auto censurar, criando um "código de conduta" moralizador para suas publicações.

Isso causou um retrocesso danado na indústria das HQ, do qual ela ainda não se recuperou por completo até hoje (sim, apenas agora as majors voltaram a lucrar muito, graças ao cinema, e algumas publicações voltaram ao mercado, como podemos ver nas imagens postadas por Kelley Jones e replicadas aqui nesta postagem). Se toda essa palhaçada moralista do Dr. Wertham tivesse sido tratada com as gargalhadas que merecia, se ninguém tivesse se auto censurado, se as editoras tivessem tido um mínimo de culhão e fincassem o pé, peitando os totalitários de plantão (que incluíam políticos) as coisas poderiam ter sido melhores para todos os envolvidos. Mas eram editoras, empresas que se borraram nas calças de medo de perder leitores, ou pior, cair nas malhas do macarthismo.

Reedições de clássicos da EC
Ou seja, da maneira que vejo as coisas, todo mundo pode dizer o que bem entender. A arte pode ofender, os ofendidos podem reclamar, o empresário pode se borrar todo e quem reclama de quem reclama também pode achar tudo um absurdo e proclamar sua raiva contra a suspensão da publicação/exposição. 

Agora, o que eu acho? Acho que empresas têm a terrível tendência moralista de se acovardar diante dessas ameaças financeiras. Aí, me vem à cabeça a coragem do Charlie Hebdô em se manter aberto e funcionando mesmo depois de ter sofrido um ataque terrorista e seus membros assassinados dentro da redação. Pagaram um preço alto por suas posturas (que muita gente, incluindo eu mesmo, acho questionáveis, mas nem por isso acho aceitável que alguém seja morto por causa disso).

O Dr Wertham estava correto? Não. Ele podia começar uma caça às bruxas? Ele achava que sim e tinha todo um estudo embasando suas teorias. As editoras poderiam sentir medo? Claro, como empresas tinham todo o direito de temer por seu prejuízo. Deveriam ter feito o que fizeram? Não (e a História prova que não mesmo).

Não parece familiar, respeitando as devidas proporções?

O medo é o assassino da mente, amigos. E aí reside o problema.

domingo, 30 de julho de 2017

Quais são os cinco erros mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever ficção científica?

O escritor Luiz Brás me perguntou quais os enganos que eu mais percebo quando escritores experientes em outras áreas se aventuram a escrever ficção científica. Volta e meia isso acontece, seja por um modismo ou apenas para aproveitar uma oportunidade editorial, e os escritores pouco acostumados com os truques do gênero costumam escorregar em algumas curvas fechadas.
A cinco seriam…
1. Reinventar a roda por falta de pesquisa
Acontece quando o autor não leu o suficiente dentro do subgênero ou não se aprofundou nos elementos tecnológicos e científicos, e decide que sua intuição a respeito de como se realizaria a viagem no tempo, a antigravidade, a viagem espacial ou a invisibilidade é genial e originalíssima. O resultado geralmente é um déjà-vu.
2. Usar o cinema como referência principal
Como os romances mais recentes demoram para chegar ao Brasil, o principal contato com a FC vem por intermédio do cinema, que, no que diz respeito a temas e tecnologias, já está umas boas duas décadas defasado em relação à literatura. Mais uma vez, as referências visuais e terminológicas advindas dessa mídia audiovisual acabam por tornar a narrativa superficial e falsamente autoexplicativa, como a tendência em se considerar termos como “torpedos fotônicos” (“Star Trek”) ou “replicante” (“Blade Runner”, o filme) como senso comum dentro do léxico literário. Às vezes isso implica em erros grosseiros, como podemos ver em autores que confundem os termos “androide” e “robô”, ou que acreditam que “parsec” poderia ser aplicado como unidade de velocidade e não de distância.
3. Enrolar na explicação técnica com technobabble ou esoterismo
Não é porque você não sabe como um processo científico se realiza que seu personagem cientista também não precisa saber. Ele precisa, mas às vezes parece mais fácil apelar para saídas “mágicas” disfarçadas por um linguajar pseudocientífico (a famosa technobabble). Como resultado, temos um híbrido, algo parecido com a tentativa de mesclar esoterismo à FC, coisa muito comum principalmente nas telenovelas que se arriscam por essas veredas, que descaracteriza o principal fator de construção da obra de FC: a lógica interna.
4. Apelar para metáforas para fugir das descrições científicas
Uma consequência provável do item 3. Ocorre quando, sem saber como explicar uma maravilha científica ou suas consequências e sem querer apelar para o esoterismo, o autor lança mão de metáforas que não apenas não explicam nada, como confundem o leitor. A FC pode ser metafórica – até diria que deve ser – em seu teor mais amplo, nos temas, por exemplo, mas não nas definições de causas e consequências.
5. “As you know, Bob”
Erro comum até em quem professa a FC de maneira regular. Artifício que aproveita um diálogo aparentemente despretensioso para situar o leitor dentro de um cenário fora do normal. Foi popularizado pela frase em inglês “As you know, Bob”, e pode ser identificado em quaisquer descrições que comecem, incluam ou finalizem com sentenças semelhantes, como, por exemplo: “Todo mundo sabe disso! As viagens espaciais ficaram comuns depois de 2135, lembra?”, “Já cansei de avisar que a estação lunar está desabitada há décadas” ou “Esqueceu que a humanidade foi reduzida a um terço depois de 2035?”. É sempre melhor mostrar do que contar.

domingo, 16 de julho de 2017

A mosca na sopa das reinterpretações cinematográficas

Rever A Mosca (1986), de David Cronenberg, produzido curiosamente pelo mestre da comédia Mel Blooks, esclarece o que de errado acontece com os remakes contemporâneos. É paradoxal que em tempos de "storytelling enquanto ferramenta de marketing" tenha-se, aparentemente, esquecido como contar uma história.


"Tenha medo. Tenha muito medo"
A primeira imagem é um close de Jeff Goldbum, falando diretamente ao público quem ele é e o que faz ("sou um cientista e meu trabalho vai mudar o mundo"). Claro que é um diálogo, pois, em seguida, o contraplano revela Geena Davis como sua ouvinte, que, de cara, dá a ideia geral sobre o personagem e a situação, ou seja, "esse esquisito está me cantando".


A partir daí, acompanhamos o casal, o romance e a experiência do êxtase ao fracasso, da esperança à desgraça, com uma economia narrativa que deixaria Christopher Nolan com espasmos catatônicos ao ver contrariada sua ânsia professoral/explicadinha.


A palavra-chave aqui é "concisão". Um elenco enxuto, cenografia limpa – o que destaca o design do Telepod em forma de casulo – fotografia precisa, sem exageros de contrastes, a não ser na hora do confronto final, e um roteiro que, se não é perfeito, sabe contornar muito bem seus eventuais problemas com um truque simples: admitir que seus personagens, por mais sábios em termos científicos ou competentes em suas áreas, não sabem tudo, não dominam os aspectos de todas as ciências humanas, e são convincentes em suas eventuais crises de imaturidade e estupidez.


Sem moralismos, sem exageros e com um verdadeiro show de interpretação de Goldblum (que nunca mais teve atuação tão técnica, cheia de nuances de voz e posturais) A Mosca, uma metáfora inteligente à AIDS, é um raro caso de remake superior à obra original [The Fly (1958), direção de Kurt Newman, que se comprazia em discutir ética e pena de morte] deveria ser refeição obrigatória para diretores de remakes contemporâneos, como Zack Snyder, Tim Burton e até mesmo o cultuado Peter Jackson, cada um deles talentoso, mas com uma perigosa tendência para o excesso.

A Mosca original, outra época, outros dilemas.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Não há mais lugares sagrados

Caninos brancos atendem ao chamado selvagem.
Lanchonete fechada, procuro um lugar com luz para esperar resgatar o Gui depois da aula de futsal e, se possível, ler um pouco. Única opção disponível: um local amplo, iluminado, a princípio, tranquilo, quase vazio? A igreja.
Entro. Dou de cara como aquele Jesus crucificado que desta vez me parece ainda mais sofrido. Percebo que há um contraste involuntário entre aquela imagem cheia de sangue e dor, um homem desnudo, subnutrido, ferido, e o ambiente plácido, arejado.
Ignoro. Busco um banco, de preferência o último para não atrapalhar o pequeno e atuante grupo de senhoras que declamam a respeito das benesses da crença em Maria (com um vigor digno de um pastor protestante). Desvio o olhar a tempo de dar com um bolo de pelos escarrapachado no chão da igreja.
Um Lulu da Pomerânia me encara com ares de “sai pra lá, ralé”, exatamente a mesma expressão de sua dona, que ocupa o meu tão desejado último banco.
Desvio, escolho o genuflexório adiante e me aboleto com mochila e tudo no confortabilíssimo assento de madeira.
É quando um som misto de berro de vítima de Freddie Krugger e rosnado de dinossauro do Jurassic Park me faz dar um pulo de dois metros.
Outra senhorinha, de seus 70 anos, que entra logo atrás de mim, mete o pé com tudo no peludo que, descendo de sua pose majestática, voa na canela da agressora, dando início a um duelo ágil e mortal.
Imaginem: de um lado do ringue, trajando um tailleur bordeuax e pesando 120 quilos, a velhinha da bolsa giratória, especialista em chutes de curto alcance, mas com a força potencial de um bate estaca sobre saltos plataforma. De outro, uma fera sanguinária de quarenta centímetros, pelo lustroso, dentes afiados e, com certeza naquele momento, em plena conexão espiritual com seu lobo interior.
Enquanto o combate acontece às minhas costas, a atenção das carolinhas na frente da igreja é atraída pela barulhada e, ato contínuo, todas se viram para o único elemento destoante no ambiente...
Eu.
Antes que alguém faça alguma conexão errada entre os berros, a luta pela vida que acontecia ali e minha excelsa pessoa, levanto o mais discretamente possível e me afasto do incidente, deixando bem claro que não passo de um espectador inadvertido.
Não, não sei qual fera sai vitoriosa da contenda, mas um último olhar sobre o ombro revela o rosto do Cristo Crucificado. Ele parece sorrir.
Saio correndo para nunca mais voltar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Nomes Tem Poder, Parte 2: do jargão profissional ao fetichismo da mesóclise

"Logos em grego quer dizer conhecimento e também palavra. Typos quer dizer padrão e também grafia. Portanto, (logotipo significa) grafia da palavra ou palavra padrão. Agora, (logomarca, que se traduz como) palavra marca ou conhecimento marca quer dizer o quê? Coisa nenhuma"
ESCOREL, A. L.

O Efeito Multiplicador do Design


Uma discussão no Facebook, iniciada por essa citação feita por mim ao livro de Ana Luiza Escorel, uma das maiores pesquisadoras de design do Brasil, revelou um conflito que me parecia resolvido há anos, relacionado à grande discórdia léxica do mundo da comunicação visual (ao menos no que tange a Terra Brasilis): logomarca seria um sinônimo aceitável para o termo logotipo?

A esse respeito, eu mesmo já havia escrito um artigo para este blog em 2014, que acreditava colocar um ponto final na discussão, mas me deparei com outra linha argumentativa, que, ao lançar mão de uma visão contemporânea da gramática, validaria a utilização do termo logomarca como um neologismo validado pelo uso e pelo entendimento por parte dos leigos. Em resumo, se o vulgo usa e compreende o termo logomarca e se ele cumpre sua função sígnica em relação ao que se quer nomear, realizando de maneira coerente uma comunicação, então é válido e deveria ser aceito como um termo senão oficial, pelo menos oficioso

Indo um pouco além, e agora cito a frase de um ex-aluno meu que me questionou a respeito, "se a palavra consta nos dois repertórios fazendo referência ao mesmo objeto, a comunicação é efetuada". Eu poderia concordar com isso se – e claro que haveria um "se" – a relação entre o termo e o que visa representar fosse precisa ou, no mínimo, clara. A qual objeto se refere o termo logomarca? Ao código linguístico de uma empresa ou produto? Ao seu fonema? À sua representação por escrito? Ao símbolo muitas vezes abstrato que o representa, prescindindo de letras ou sons? Ou é um termo que representa tudo isso junto? Esse é o grande problema. Não é um termo que resolva uma questão,  muito pelo contrário, ele incita a mais perguntas, cria mais dúvidas. E tudo que o designer quer é sanar dúvidas.

"Logomarca pode ser até um termo mais eficiente, porque engloba ao mesmo tempo marca, logotipo, simbolo, etc"

Na verdade, não. Não há como ser eficiente sem um léxico claro e direto. Vamos usar o exemplo da medicina, que sempre me é tão caro: imagine um cirurgião que, ao necessitar fazer uma incisão em um paciente, peça o escalpelo. Ou pior, crie um novo termo, um "incisor", em lugar de "bisturí". As chances de se criar um ruído, e, em consequência, um problema maior que o original são infinitas. 

A definição do termo, pela Wikipedia
Da mesma maneira, ao ser solicitado a criar uma logomarca, como saber a que o cliente se refere? É um pedido que gera um escrutínio ainda maior da parte do designer, visando identificar a necessidade real de seu cliente. Às vezes, um logotipo se basta. Outras vezes, acrescentar um símbolo é necessário. Usar o mesmo termo para múltiplos elementos não ajuda em nada, configurando maior perda de tempo e, em consequência, dinheiro.

O terceiro ponto digno de nota na discussão é muito mais sério, em meu ponto de vista, e diz respeito à imposição de uma autoridade, uma "dinâmica de poder", quase sempre por um viés autoritário, um julgamento de valor da parte daqueles que dominam o jargão em detrimento daqueles que não tem a mesma destreza.  E o exemplo que me foi dado referia-se ao uso da mesóclise por uma figura pública contemporânea.

"Julgamentos de valor nessa seara costumam refletir uma dinâmica de poder... tipo o fetichismo da mesóclise ao abordar o discurso do presidente, mesmo que ela tenha sido amplamente abandonada no uso cotidiano"

Isso é um fato. Realmente, há uma dinâmica do poder dentre médicos, economistas e advogados que, graças à utilização de um jargão próprio, afastam aqueles que não são seus "iguais". Porém, não é esse o caso dos designers. Exatamente por sua posição fragilizada na hierarquia das profissões, principalmente no Brasil, os designers não possuem o peso que outras atividades socialmente estabelecidas há séculos dispõem. Pelo contrário: o jargão dos designers, longe de visar afastar o público, busca aproximação e confluência, com clareza raramente vista em outras áreas. 

Por exemplo, o verbo "repaginar" diz respeito à alteração da ordem de páginas em uma publicação – e apenas isso. No entanto a apropriação do termo pela publicidade e a moda, transformou o verbo, originalmente simples, direto e funcional, em outra coisa de significado muito menos claro. Hoje se pode "repaginar" um guarda-roupas, uma fachada, um projeto de vida... ou seja, não há nenhuma intenção de imposição de poder no uso do jargão do design, apenas melhorar a comunicação, o que me parece muito mais socialista que o uso de uma mesóclise fora de contexto.

Assim, claro que a língua evolui, claro que neologismos, como já disse o hoje tão perseguido Monteiro Lobato, devem correr livres, pois "sem eles não há renovação", porém, no caso do jargão do design, o fetichismo vem de fora, vem da apropriação indébita com intuitos questionáveis que, em consequência, podem causar ruídos e colocar em risco senão alguns lucros, pelo menos a relevância de uma profissão ainda tão pouco respeitada no Brasil.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O design dos filmes [1]

Divagando sobre design e cinema: adoro Aliens - O Resgate, mas tenho um zilhão de problemas com o design de produção desse filme, que vão desde o contador de tiros do fuzil – inútil, já que está posicionado fora do alcance visual do usuário – até o piso em placas modulares da nave dos Marines, em uma área que fica exposta à gravidade zero, que até uma criança consegue arrancar com as mãos nuas.

Ah, designers...