quarta-feira, 9 de maio de 2012

Uma prévia de A Mão Que Pune

Amigos, revendo o manuscrito da continuação de meu romance A Mão Que Cria (2006, Mercuryo), voltei a me empolgar com a história – ou as histórias – e decidi exibir um pouco do texto inédito só para mostrar que não estou parado. Os personagens envolvidos nessa cena são dois dos mais famosos monstros da literatura européia e há também o surgimento do grande vilão do romance anterior, mas num momento que antecede a primeira Guerra Mundial, quando era o maior agente infiltrado do Kaiser em território francês.

Espero que gostem e que acenda a curiosidade a respeito de A Mão Que Pune.

***

    O assassino que atendia pela alcunha de Fantômas conhecia bem os esgotos de Paris. Durante cinco anos fez do labirinto infecto seu refúgio e seu palácio. Matou muita gente, negociou com os grupos criminosos que ascendiam como os balões tão em voga no Champs de Mars e lucrou com sangue e pólvora. Paris era seu parque de diversões, mas agora já não achava tanta graça.

    Seu esconderijo central sob a Bastilha estava destruído. Seus valiosos pertences quebrados. O estúdio, onde preparava os planos para a tomada da cidade dali a algum tempo, reduzido a pó. Nem a biblioteca fora poupada da fúria do agressor e imaginou se isso teria algo a ver com os bandidos com os quais havia se mancomunado. Os membros da Cabala do Valete de Copas poderiam tentar atraiçoá-lo caso soubessem onde se escondia, e isso era a informação mais bem guardada de toda França. Não, a Cabala dependia dele para impor o terror nas ruas e pressionar o tal inglês, Prendick. O acordo era vantajoso para os dois lados. Também não parecia coisa dos italianos, apesar das investigações de Fantômas terem revelado que havia mais por trás dos dois punguistas. Tinha de ser um jogador novo. Alguém com recursos financeiros quase ilimitados e capacidades comparáveis às suas. Um homem forte o bastante para arrancar da parede e arremessar uma estante de metal que pesava trezentos quilos. Um sujeito assim não poderia passar despercebido, tinha de ser um gigante, talvez maior que ele próprio, que media improváveis um metro e noventa.

    A ameaça era clara. O rabisco na parede afirmara que Fantômas morreria naquele dia e, pelo estado das coisas, o pretenso assassino já deveria estar escondido, pronto para dar o bote. Seria o que ele mesmo faria. Esticou o braço direito, alerta, e apanhou um dos restos da estante despedaçada, uma haste metálica de 40 centímetros, enquanto a mão esquerda buscava o facão que sempre trazia à cintura, numa bainha de couro. Aquela lâmina nunca lhe havia falhado e foi reponsável por mais de uma centena de mortes barulhentas ou silenciosas.

De certa maneira, Fantômas estava feliz. Finalmente, depois de tanto tempo, surgia um adversário capaz de antecipar seus movimentos, de subverter o jogo no qual se especializara e tentar tranformar o maior caçador da Europa em caça. Seria divertido trocar de papéis ao menos uma vez e vivenciar um novo tipo de emoção, mesmo sabendo que, no final, a velha lâmina acabaria matando a sede.

    Concentrou-se. Prendeu a respiração e eliminou mentalmente todos os ruídos e odores próprios do local, a goteira do cano do esgoto partido, o assovio do vento encanado, o aroma adocicado do lixo orgânico, focando a atenção naquilo que apareceria como fora do normal. Estava ali. Um lento resfolegar. Um vago odor de podridão diferente do que estava acostumado. Tudo muito sutil, mas que se evidenciava a cada segundo a ponto de servir como um guia para o posicionamento do invasor. Fantômas sentia o contorno do adversário e confirmou suas suspeitas. O homem, se é que se poderia chamar aquilo de homem, era maior que ele e possuía dotes atléticos admiráveis. Poucos onseguiriam ficar imóveis por tanto tempo em posição tão incômoda. Logo um plano de ação se formou na mente do Monstro de Paris.

    A haste de ferro zuniu e mergulhou na escuridão do teto da galeria pluvial. O som do impacto foi claro e o grunhido subsequente confirmou as espectativas de Fantômas ao antecipar a queda do inimigo. O gigante pousou sobre as duas pernas, a barra de ferro cravada no abdômem. Fantômas não perdeu tempo, jogou-se brandindo o facão contra o portador da máscara de tiras de couro. A lâmina desceu em semicírculo perfeito buscando o espaço entre a glote e a clavícula, mas foi bloqueada pela prória haste de metal, que o invasor retirou da barriga a tempo de usar como arma de defesa.

    O choque fez com que ambos se desequilibrassem, caindo sobre pilhas de destroços variados, louças, livros e miudezas. Ambos recobraram-se ao mesmo tempo, mas foi o homem da máscara de couro quem partiu para o ataque, desferindo três golpes consecutivos com a barra de ferro, errando a cabeça de Fantômas por centímetros e abrindo sulcos profundos na parede de tijolos. A guarda aberta permitiu que Fantômas explorasse a área ferida no ataque anterior e enfiasse a faca até o cabo no adversário, que interrompeu a carga e deu dois passos cambaleantes para trás, segurando o braço do atacante.

Fantômas riu, pensando que, afinal de contas, nem tinha sido tão difícil. O sujeito era mais lento do que parecia e a vitória não estava longe. Agarrou a garganta do mascarado e pôs-se a apertar aguardando que a pressão em seu braço diminuísse, substituída pelos esgares da morte. Para sua surpresa, não apenas a manopla não diminuiu a força como a intensificou, torcendo o braço de Fantômas até se ouvir um estalo na altura do cotovelo, acompanhado por um berro agudo.

    Fantômas caiu de costas, sem acreditar que o grito saía de sua própria garganta. O mascarado, aproveitando a deixa, desceu o pé sobre o joelho esquerdo do inimigo, fraturando-lhe a rótula e impedindo uma reação ou fuga imediata. Apesar da agonia, reuniu todas as forças num chute com a perna sã, acertando em cheio a genitália do gigante. O impacto ergueu o mascarado do chão, mas não foi o sufuciente para afastá-lo da presa. Sem se importar em retirar a faca das entranhas, o homem com a máscara de couro jogou-se sobre o inimigo caído e, munido de um tijolo retirado da parede esburacada, golpeou repetidas vezes o rosto de Fantômas até que sangue e poeira viraram uma pasta negra.

    O mascarado levantou-se, puxou a lâmina e observou a extensão do ferimento. Nada que agulha e linha não resolvessem. O importante era que os despojos pertenciam a ele. As conexões com o submundo, os acessos aos mais variados ambientes, as riquezas incalculáveis que Fantômas amealhou nos últimos anos, mas o mais importante, o realmente valioso, era ser herdeiro de uma tradição de medo e dor. A fama cuidadosamente cultivada por Fantômas e que pairava sobre o coração dos parisienses como uma doença. Isso sim, era uma dádiva a ser valorizada.

    Estava concluído o combate. E Paris tinha um novo monstro habitando suas entranhas.

4 comentários:

Leonardo Peixoto disse...

Li A Mão Que Cria e adorei a história e a mistura de história alternativa com Ficção Alternativa !
Você tem previsão de quando a continuação será lançada ?

Octavio Aragão disse...

Leonardo, o livro está pronto. Só falta a revisão final e mandar a uma editora que se interesse. Muito obrigado pelas boas palavras!

Dalton L.C. de Almeida disse...

Caro Otávio!

Como anda a busca por encontrar uma editora para a "Mão que pune"? Já o cobrei (rs) via CLFC no passado, agora, anos após, retorno a leitura da "Mão que cria" e me pergunto, como pode ser possível que ninguém publicou ainda seu livro? Temos a Draco, a Aleph, a Rocco, entre tantas outras editoras que publicam cada coisa lastimável e outras muito boas, um livro com a qualidade do seu, com certeza, teria espaço. Mande o original para eles! Especialmente se já puder mandar os do livro anterior, se não, pelo menos, mande para os fãs lerem rs Prometo que quando sair, compro um exemplar!

Octavio Aragão disse...

Olá, Dalton.
Obrigado pelo interesse.
Agora, finalmente, o livro está pronto. Ainda não fechei com nenhuma editora, mas não tenho pressa. A Mão Que Pune – 1890 está passando neste momento pelo segundo beta reader.
Mas com certeza será publicado.