quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O último dia de Cassis - uma cena revisada de Rainha das Estrelas

Trem submarino japonês, inspiração para o transporte da Coroa

  A pequena cena abaixo foi publicada com diversas alterações na versão final de Rainha das Estrelas, lançada pela Editora Draco dentro da antologia Space Opera 2. Além dos dados técnicos relativos ao trem particular do coronel Raga, extrapolados de um projeto de trem submarino japonês, perderam-se os detalhes de um dos coadjuvantes mais potencialmente ricos da história, o major Cassis, braço direito do coronel ciborgue. É com o major que temos uma visão familiar, talvez a única em toda a história, fora os detalhes domésticos do próprio Raga. Blancha, esposa de Cassis, é uma personagem que não pertence a seitas, castas ou camarilhas. Ela é esposa e mãe, mas nem por isso menos atuante ou influente, ao menos em seu círculo. Assim como a minha visão de Raga se baseia em Robespierre, a relação do casal Cassis é próxima (mas não igual) ao drama de Camille e Justine Desmoulins, que viveram papéis centrais durante a Revolução Francesa.

  O Cassis original era um piloto da Rainha das Estrelas, parte da gangue capitaneada por Anton Argo. Na nova versão, ele é um oficial da Coroa treinado por Raga que participou das aventuras anteriores e, por causa de sua relação com os piratas, tornou-se o terceiro mais competente dos oficiais sob o comando do coronel. Abaixo, pode-se ver duas versões do personagem, uma no lápis de Osmarco Valladão, datada de 1983, e outra por mim mesmo. A cara de Che Guevara, com boina e tudo, cria um contraste interessante com o uniforme de gola alta da Coroa, todo certinho. Infelizmente, o que se lê é o prenúncio de sua última missão: transportar um prisioneiro importantíssimo que também está na mira do Grupo, a principal facção criminosa de Ryoh, e dos antigos colegas da tripulação da Rainha. A identidade do prisioneiro é um dos pontos principais da trama e, para saber de quem se trata, só lendo a história completa.

O Cassis contemporâneo e, no detalhe, em 1983, por Osmaco Valladão


   O major Claude Cassis quase sentia pena do prisioneiro. Como se não bastasse ser enviado aos porões do Quartel Insular da Coroa – também conhecido como a Casa de Praia de Raga – de onde ninguém escapava, embarcaria num subtrem que cruzaria parte do oceano, escoltado por uma tropa de elite de soldados da Coroa. O subtrem, que pesava 12.400 toneladas e atingia a velocidade mínima de quinze milhas náuticas, media 166 metros de comprimento por vinte e três metros de largura. Sua capacidade de carga poderia transportar 4.200 toneladas de locomotivas e carros, quarenta cargueiros ou dezoito compartimentos para viajantes além de 1.360 passageiros. Tudo isso seria disponibilizado para o traslado de apenas um prisioneiro. A honra de comandar a operação coube ao próprio Cassis, já que Raga estaria ocupado com os detalhes que definiriam o sucesso da missão.

    Beijar as crianças ao sair de casa foi a coisa mais difícil que Cassis fez na vida. Dessa vez, Blancha não fez questão de despedidas. Apenas acenou pela porta entreaberta do quarto, sem se dignar a virar o rosto ao som dos lábios nas bochechas dos meninos. Estava cansada das promessas, das ausências, da subserviência e, principalmente, da onipresença de Raga em sua casa a qualquer hora. Depois da morte de Tchiba Marchallus, Cassis tornou-se o único apoio do general, peça indispensável e insubstituível de todos grandes planos de Raga para salvar a Coroa de seus inimigos e, na maioria das vezes, de si mesma. Pelo pouco que se importou em ouvir, parecia que a ideia era mais tortuosa e complexa que o normal, visando libertar a nação da dependência da importação de combustível mineral. Se tivesse prestado mais atenção, Blancha teria feito o possível para impedir a partida do marido, mas como quase sempre acontece com casais há muito unidos, as birras ganham mais importância que os motivos que direcionam as vidas extra-familiares dos cônjuges.

    Talvez, se Blancha usasse sua influência sobre Cassis, o subtrem partisse sob as ordens de outra pessoa menos ciosa de seus deveres e dívidas. E talvez estivessem todos vivos agora.

3 comentários:

José Antonio de Oliveira disse...

Sensacional! Como conheci as pessoas que inspiraram os personagens, cheguei a me emocionar.

Marcos Archanjo disse...

Octavio, mais um trecho emocionante da trama que infelizmente não consta no livro. O trem é algo impressionante, precisamos de alguma coisa do tipo HOJE por aqui...rs

Parabéns mais uma vez e fico aguardando as próximas aventuras!
Archanjo 0:)

Octavio Aragão disse...

Zé, prepare-se para mais e melhores emoções ao ler a história completa, na antologia. Muito obrigado a todos vocês por existirem.

Marcos, a cena consta no livro,mas bem diferente. Quanto ao trem, concordo contigo, mas espere para ler no livro o que acontece DENTRO dele.